sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Robinson Crusoe


Desde a juventude que tenho na cabeça a ideia de que Robinson Crusoe de Daniel Defoe (1660-1731) é uma história para miúdos.
No entanto, também desde a juventude, me tem surpreendido o facto de que muitas das obras filosóficas lidas ao longo de décadas se referiam a Robinson Crusoe para ilustrar este ou aquele pensamento. Isto me fez tomar a resolução de ler o livro de Daniel Defoe.
Agora sei que Robinson Crusoe não é para miúdos porque estes não o podem compreender, mas para graúdos e nem todos (perdão por não ser politicamente correcto).
A obra literária Robinson Crusoe tem por alicerce a Reforma (séc XVI) em rotura com a Igreja Católica, dando-nos fé do estado nascente do capitalismo.
Robinson Crusoe rompe com o pai que se opunha ao filho «dominado apenas pela ideia de navegar...» (cap. I).
De facto, o mar é a grande porta que se abre a uma burguesia desejosa de rebentar com o colete de forças imposto pela Igreja Católica. Mas há percalços. Robinson Crusoe é feito escravo «...por um corsário turco de Salem...» (cap. I). Curioso que o nome desta cidade marroquina na costa atlântica evoque todo o espírito bíblico da Jerusalém celeste... espírito esse que tem por centro a justiça.
Robinson Crusoe  ilude o amo e recupera a liberdade, levando-o uma série de peripécias incríveis ao Brasil. Aqui, dispondo de alguns bens de capital, investe em plantações de tabaco e cana-de-açúcar: «No terceiro ano plantámos tabaco e no seguinte preparámos um grande terreno para plantar cana-de açúcar» (cap. II).
Mas, aparentemente, Robinson Crusoe esquece a lição que tinha recebido em Salem da Berbéria: «...à medida que os negócios e a riqueza aumentavam, a minha cabeça começou a encher-se de projectos e empreendimentos superiores às minhas forças...» (cap. II). Seduzido por plantadores e comerciantes, Robinson Crusoe vai à Costa da Guiné obter «...negros para o serviço das culturas brasileiras em troca de bagatelas como colares, facas, tesouras, machados, pedaços de vidro e outros objectos que tais» (cap. II).
É aqui que convém lembrar o leitor de que nos focamos num texto literário, portanto simbólico. Isto esquecido, nada se pode perceber do Robinson Crusoe.
O conceito de comércio livre não se harmoniza com a escravatura. Se a dinâmica capitalista só é possível entre pessoas livres proprietárias de bens para troca, como se poderia articular logicamente com a escravatura? Eis por que a busca de escravos, no decurso do discurso, fracassa.
Fracassa porque Robinson Crusoe naufraga, todos se perdem, só ele se salva... arremessado pelas ondas para uma ilha deserta, quer dizer, desabitada. Mas, atenção, esta ilha não está no mapa porque é a grande metáfora ou alegoria de cada um de nós... sempre sozinho perante a problemática da salvação.
É assim que a personagem Robinson Crusoe sofre uma profunda metanóia, isto é, uma profunda mudança de sentimentos ou, - digamo-lo - um profundo arrependimento, deitando mão a toda a formação cristã recebida no seio familiar desde a infância. Mas... não tenhamos ilusões: é a perspectiva calvinista que está em jogo. Deus, por força da presciência, sabe se me salvo ou condeno. O que eu quero é salvar-me. Mas como saberei se estou salvo? Calvino responde: trabalha sem cessar que Deus misericordioso dar-te-á o sinal da tua salvação. Ora este sinal corresponde à prosperidade do batalhador. Eis o que a burguesia quis ouvir, voltando costas à Igreja Católica; eis o que preteriu o Brasil a favor dos Estados Unidos da América; eis o que, feito do meio um fim, poderá precipitar o homem na total escravidão. Regressaríamos então à estaca zero, quero dizer, ao princípio de Robinson Crusoe de Daniel Defoe.  



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