sábado, 19 de agosto de 2017

A QUEDA DUM ANJO de Camilo Castelo Branco


Se Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco nos confronta, em demasia, com o tema sério de uma aristocracia perdida que por força ruirá, o «Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas...» é o protagonista perdido de A Queda dum Anjo do mesmo autor.
Mas porquê assim?
Calisto Elói só confiava nos seus livros. É a própria personagem que no-lo explica no capítulo XXV com o título de Perdido: «Conheço melhor Eurípides e Séneca. Pendi sempre à lição de clássicos gregos, latinos e portugueses. Crê-se nas províncias que o saber humano está nisto».
O que se crê nas províncias não deixa de ser respaldado pela verdade, mas esta é a mesma ao longo de todas as eras: a tradição reclama inovação, radicando esta naquela. Isto não sabia Calisto porque, embora tivesse erudição e até fosse criativo, faltava-lhe o espírito crítico para sopesar as coisas. Eis por que no capítulo XVII, In Liborium, se pode ler: «A nomeada do provinciano, [...], cobrara fama de coisa extravagante e imprópria desta geração».
Mas o que mais espanta em Calisto Elói é que esta personagem desfalca-se numa importante faculdade humana, vale dizer, a vontade. Veja-se esta passagem do capítulo XXI, O Mordomo das Três Virtudes Cardeais: «O infeliz não desfitava olhos de certa janela, desde que vira perpassar uma luz pelos resquícios das portadas. Podia a traída Teodora antepor-se aos olhos extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas estreladas de brilhantes, que ele não a via nem queria ver». Esta transcrição ilustrativa poderia ser considerada insuficiente pelo leitor se antes, no mesmo capítulo, não se lesse que Calisto «viu-se no espelho que a razão lhe ofereceu e cobrou horror da sua figura».
A absurdez do deputado por Miranda ultrapassa todos os limites, desnudando o crápula da mais ínfima espécie: «Minha senhora... que vale a Pátria em comparação da honra que V. Ex.ª  me dá?!» (capítulo XXIV, A Mulher Fatal).



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