domingo, 22 de maio de 2016

A Fonte da Senhora



Fonte Bicéfala

Publicamos um texto do Sr. António José Godinho de Oliveira.

«Entre os principais dez tesouros do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa encontra-se um fragmento de coluna torsa manuelina, datada do século XVI (1501-1515), considerado o único objecto civil da colecção de escultura portuguesa. Procedente de uma antiga fonte de água, foi achado no monte de Nossa Senhora da Atalaia, em terrenos outrora designados por terras da rainha. Com 1,09 m. de altura, e esculpido por canteiro anónimo em pedra calcária da região da Estremadura portuguesa, configura duas serpentes com cabeças humanas coroadas, uma masculina e outra feminina, aliadas a dois escudos relevados - divisas da rainha velha D.ª Leonor (1458-1525) e de seu irmão el-rei D. Manuel I (1469-1521) - compostos por um camaroeiro e uma esfera armilar com as letras EMPRP inscritas na elíptica - Emanuel Primus Rex Portugaliae. Saindo nas respectivas bocas dois tubos metálicos, de secção circular, dando forma às bicas por onde outrora corria água.
Provavelmente, parte da fonte mandada construir pela confraria de Lisboa, com o patrocínio da rainha D.ª Leonor, com linha conceptual próxima da do cruzeiro com baldaquino de estilo gótico-manuelino, levantado em 1551, no arraial fronteiro à capela, em terras do concelho de Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo), já depois da real senhora haver falecido. Fonte à qual pertenceu também uma lápide de pedra encontrada numa quinta contígua à fonte santa (Quinta do Caria), onde se lia... obra da confraria de Lisboa, mas cujo paradeiro entretanto se ignora.
Segundo o Padre Manuel Ribeiro da Costa indiciando que a sua factura (fonte) fosse no mesmo anno em que se erigiu o primeiro cruzeiro d'Atalaya, isto é, no anno de 1551.
Por documento elaborado pelo mesmo museu, há conhecimento do fragmento ter sido alienado por José Pinto Leite (proprietário e ex-autarca do Montijo), no ano de 1939, pelo valor de esc. 644$00. Elementos que parecem evidenciar a clareza do fragmento achado ser parte integrante do primitivo conjunto escultórico da fonte, no qual falta a bacia, mas localizada em solo alcochetano, junto da aroeira em cujo topo, conta a antiga tradição, terá aparecido a veneranda imagem de Nossa Senhora, com a invocação - "Atalaia".
Designada desde 1507 por fonte santa, são realmente antigas as romarias consagradas a Nossa Senhora da Atalaia, padroeira das Alfândegas de Lisboa, designadamente as encetadas pelos seus oficiais, onde a tradição mandava que os romeiros procedessem à lavagem simbólica do rosto e à recolha do seu precioso e miraculoso líquido. Tradição à qual o povo acrescia o costume, menos religioso é certo, e hoje quase esquecido, das peregrinas estreantes se sujeitarem ao batimento das nádegas na velha aroeira entretanto já desaparecida, mas que, na sua falta, tem nos exemplares do arvoredo local os seus substitutos.
Todavia, considerando que a data da construção da fonte e do cruzeiro, ano de 1551, como afirma o Padre Manuel Costa na mesma obra é uma e a mesma, por que razão não admitir tratar-se de duas obras consubstanciando um só projecto, localizada uma no concelho de Alcochete e outra no concelho de Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo)».

Sem comentários:

Enviar um comentário