quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Minhas respostas à revista LIVROS & LEITURAS

. Quem é?

A pergunta «quem sou?» é a que eu faço à escrita, esperando que a resposta alguma vez me seja dada.
Portanto, eu encaro a escrita como um processo de auto-conhecimento, já que se não sei quem sou, em vão tentarei chegar ao outro.

. Como e quando começou a interessar-se por Literatura?

O meu interesse pela Literatura vem desde a infância.
As minhas primeiras leituras foram da Bíblia. Gostava de ler o Génesis. Houve um livro na minha infância que timbrou o meu imaginário até aos dias de hoje. Foi o Bartolomeu Marinheiro de Afonso Lopes Vieira emprestado pelo meu professor da instrução primária, Francisco Leite da Cunha.
Nos anos 60, as hagiografias espicaçavam a minha sensibilidade. Via que as pessoas gostavam de ler o que eu escrevia, acalentando, assim, a ideia de que um dia haveria de publicar livros.

. Por que motivo resolveu escrever livros?

Já adulto, interiorizei que era meu dever bater-me por valores que são pilares da civilização que me fez. Para esse fim, percebi que a Literatura estava acima da Teologia, Filosofia, Sociologia, etc. Eis por que resolvi ser irmão de Dom Quixote, dizer a todos que são mesmo monstros que cada vez crescem mais à nossa volta e que confundi-los com moinhos de vento é alienar a vida.

. Qual foi a obra que mais gostou de escrever e por quê?

O processo da escrita é trabalho imperfeito. Logo, estou sempre à espera da plenitude...da "magnum opus" que não sei se farei porque não sei se esse é o plano de Deus para mim.

. Em que é que se inspira para escrever um livro?

Inspiro-me em o Canto V de Os Lusíadas, estrofes 50 a 59. O que se vê aqui?
O Adamastor é a Terra («Fui dos filhos aspérrimos da Terra»), o mundo feudal em agonia; a Thetis é o mar («Ó ninfa, a mais formosa do Oceano»), o mundo moderno em estado nascente.
Qual era a possibilidade do enlace amoroso entre uma idade em estertor e outra pujante de vida? Nenhuma. É que o servo já acelerava em direcção ao homem livre.

. Se não fosse escritor, o que gostaria de ser?

O homem do terceiro elemento.

. Quais são os seus autores preferidos?

Homero, Virgílio, Séneca, São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás, Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Camilo Castelo Branco, Dostoievski, Cesário Verde, Vitorino Nemésio.

. Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

Um homem ou mulher para ser escritor(a) tem que ser e ter alguma coisa para dizer ao outro.
Sem se tomar consciência de que lado se está, tudo o que se possa escrever é alienação. Para se fugir desta com êxito, só a leitura das grandes obras da Humanidade nos poderá levar a porto seguro. Para tal, precisamos de navegar a bordo de boas naus como a de Dom Quixote, a de Fausto, a de Mau Tempo no Canal...
Aconselho ainda quem queira escrever que fale menos e oiça mais porque esta postura torna-nos observadores dos rostos, vozes e coisas à nossa volta, condição "sine qua non" para a construção de mitos.

. Para quando um novo projecto editorial?

Não sei.


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